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segunda-feira, 25 de julho de 2022


 Entre os povos da Guatemala há uma lenda que prevalece e se espalha pelo mundo. Quando se tem um problema partilha-se com a boneca da preocupação, antes de ir dormir. Depois coloca-se a boneca debaixo da almofada. Enquanto se dorme ela levará embora os problemas.

No início deste ano ofereceram-me esta boneca. Aliviou o peso das minhas muitas noites passadas acordada e com medo.

terça-feira, 24 de agosto de 2021



Semanas, meses sem descanso. 

Refugiar-se na família que se escolhe, junto das almas fortes. 

As que dão beleza ao mundo, até quando nada faz sentido.

quinta-feira, 25 de junho de 2020







Às vezes sou uma mulher imprópria. Fico perto demais, insisto sem pudor e vivo a audácia. Enfio as minhas palavras nos teus silêncios, como um suspiro entre as costelas, um murmúrio junto aos rins, uma explosão no caminho obscuro da raiva. 

Procuro o sentido, o fio do desejo ou a falha iminente.

terça-feira, 16 de junho de 2020



Todos conhecem músicas, livros ou pessoas capazes de viciar, 
daquelas que se esgueiram pelo meio dos pensamentos, impedindo qualquer concentração? 

Quem nunca sucumbiu a uma tentação? 
Daquelas tentações que atropelam sem avisar , cheias de indecência. 

Às vezes sou uma mulher imprópria, que insiste sem pudor. 
Enfio as minhas palavras nos silêncios, como um suspiro entre as costelas, 
um murmúrio junto aos rins, uma tumulto na fissura sombria da raiva. 
E aprendo a guardar as feridas. 

E então há que celebrar a alegria. Ela ilumina as cicatrizes. 
Rir para saborear, sorrir. Engolir os segundos felizes e frágeis. 
 O suor afoga-se nos lençóis e perfuma o quarto. 
Não existe mais nada além da urgência, do olhar que emociona.
Agarrar a força, tocar os sorrisos, lamber o sal junto aos lábios. 

Há momentos cheios de faíscas, quando se inventa um outro mundo.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019




Preso. 
Algures entre o coração e a madrugada.
E o sol por cima dos telhados.
E Chet Baker, baixinho na cozinha.

E as palavras.
A vontade de amar, apesar dos humores inconstantes.
A distância que separa.
Como as duas margens de um rio.
E as pedras. E a corrente.
 
Irei caminhar. Vou sempre.
Escrever e caminhar. 
Atravessar a cidade e os dias.

E agarrar as imagens nas batidas do coração.
Está tudo bem.
A luz persiste.Sempre.

segunda-feira, 1 de abril de 2019


Tenho 41 anos e já não me sinto invencível. Tenho a medida da fragilidade na carne, nos ossos e no corpo inteiro. Na pele sei as marcas permanentes e as fissuras junto aos olhos.
Inspiro fundo para me encher do tempo que passa e que não volta atrás. À volta sei a vida frágil e os que vão embora, sempre cedo demais.
Ainda quero agarrar o valor de cada momento. O passado dissolve-se e o futuro intriga-me. No entanto o hoje é a única testemunha de um corpo que mexe.

As máscaras caíram e já não tenho medo dos outros, ou de mim própria. Acabei por perceber que nunca serei tudo o que desejava ser, o que não tem problema algum. 
É cansativo tentar agradar a todos e o melhor  é ser verdadeira, doa a quem doer.
Tenho 41 anos e não sei muito bem o caminho a seguir mas sei que a vida ainda pode ser louca, perigosa, imensa, bela e surpreendente. 
Tenho 41 anos e sinto-me grata.



sábado, 23 de março de 2019




Tnho de aprender a viver de maneira diferente.
 Mudar os planos. 
Agarrar o horizonte. 
Escolher o importante.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019



Dezembro já foi. Janeiro está a chegar ao fim. 
E as horas cinzentas, e a minha memória e a pele que conta. 
Porque as noites são frias, porque o meu corpo tem dores e há a lembrança incerta de um amanhã. 
E as viagens sonhadas, o horizonte e os pássaros dentro. 
Sabemos que a morte não anda longe e que a vida e o horror rasgam o corpo como uma lâmina afiada. 
E porque eu quero que amanhã seja doce apesar da lágrima do final de tarde. 
E o cansaço também. 
A chuva roubou a minha coragem e a minha vontade. 
Talvez amanhã.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018



Há sempre um nevoeiro carregado de medo no fundo do meu corpo. Às vezes sobe até à garganta e quando abro a boca para falar não se ouve nada além do silêncio. Ando em equilíbrio na borda da felicidade e de vez em quando caio. A minha vida é uma série de momentos ligados uns aos outros mas sem continuidade. Faltam sequências e alguma coerência. Tudo está descosido. Tenho medo e quando caminho na rua vejo sombras em todos os cantos.
Dizem que sou inconsciente. Talvez seja verdade mas não lhe chamaria inconsciência. É mais um jogo com a vida. Talvez alguma indiferença, talvez alguma adrenalina ou talvez alguma confiança na vida e nos outros. 
Tenho sempre medo e os meus olhos choraram mas quero continuar a olhar para o sol. Espero variações na curva da minha vida na esperança de poder ligar os pontos perdidos na imensidão da página branca dos meus dias.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018



Houve um tempo em que ser amada era uma prioridade, 
uma necessidade maior do que a minha própria vida. 
Mas aprendi que o respeito e o amor próprio são bem mais importantes. 
Já não espero muito dos meus dias. Vivo e luto pelos meus filhos.
Olho para o espelho e vejo sombras, um sorriso forçado 
e alguém que não fará mais do que sobreviver, porque viver é para quem merece.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Podemos escrever as histórias e vivê-las depois. Porque não?
E esta história começa hoje.
A areia debaixo dos pés, o tecido ligeiro do vestido na pele nua.
Escolher uma cadeira isolada e esperar que a noite caia para dar início ao primeiro capítulo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018



A vida entre dois segundos, como os paradoxos usados e o mundo do avesso.
Deposito pedras pequenas no caminho da vontade. Sorrisos e fantasias num dia sem fim.
Os corpos despidos e os cabelos embrulhados. E a mulher de olhos escuros como a noite mas que brilham quando o coração sorri. Ao longe uma viola. Há a felicidade que se ouve. Olho para o céu e para o sol da meia noite.  No meio da música sente-se o perfume da alfazema. e a insensatez de pequenos nadas que são tudo.. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018



Sandra Pozun

A casa cheira a madeira húmida como a lembrança do chão velho e abandonado.
No fundo das escadas uma cabeça de leão. 
Uma sensação familiar, trinta anos depois quando desço os degraus.
As pedras velhas afastam o calor. 
Os lençóis de algodão frescos na pele. 
Tenho dez anos e depois quarenta. 
O prazer mudou desde as primeiras emoções.
A estrada e os caminhos atravessados, as evasões. 
Sentes o sal junto ao pescoço e uma madeixa de cabelo húmido 
que dois dedos afastam da tua cara.
Ao fundo o céu cinzento, o corpo amado e a fome que nasce.
Há que sentir a vida e provar a pele.

quarta-feira, 30 de maio de 2018



Um dia igual a tantos outros
E talvez não.
O rio das horas leva-me com ele.
Ia para um lado e escolhi outro.
Um banco. E o vento.

Olho para as pessoas à minha volta
E procuro o silêncio
Mas qual silêncio?
O que fica dentro do barulho?
No fundo de mim?
Talvez o da poesia.
É o mais bonito.

sexta-feira, 25 de maio de 2018



Vivemos para esquecer. E nessa tarefa árdua deixamos de sentir, abraçamos a rotina e o vazio dos dias. A indiferença é o pior inimigo do coração. Agarra-se à pele e invade as veias. Deixamos de acreditar que é possível ser feliz, deixamos de sentir alegria ou tristeza. É um lugar entre dois mundos. É a história de uma mulher que se esqueceu como se faz amor.

quinta-feira, 24 de maio de 2018



Aprisionar os erros
Aceitar melhor as fraquezas
Abafar algumas susceptibilidades...
Pequenas vitórias

Mas de vez em quando a incerteza
Avançar devagar
E saber as possibilidades

Magoei-me na estrada dos pensamentos
Tropecei nos silêncios repetidos
Fico no chão com medo de tentar

O melhor é levantar
Uma nódoa negra, uma ferida
A pele vermelha nos joelhos

Talvez seja melhor experimentar outro caminho
O problema é que tenho um fascínio por joelhos feridos


quarta-feira, 16 de maio de 2018



É indecente como o tempo passa tão depressa. Os meses e as estações correm numa maratona louca. Primavera, outono, inverno e verão. Verde, amarelo, vermelho, branco. Céu azul, cinzento giz, antracite, escuridão. Manhãs claras, relógio que não pára. Vivi durante muito tempo o correr dos dias como uma queda dolorosa, como o luto de uma vida passada do lado de fora.
Mas por trás desta morte aparente vejo os mecanismos complexos que alimentam o bailado das nossas horas.
E hoje, o sol quente aqueceu-me a alma e o corpo.

segunda-feira, 23 de abril de 2018


Sabes que tudo acaba.
Às vezes tentas esquecer porque é mais confortável e menos assustador. 
Ou porque a lista dos apetites é grande e a das curiosidades maior ainda. 
Esqueces o fim quando a vida é doce e suave e sabes o equilíbrio entre a tempestade e a rotina.
Mas depois um amigo morre, um pai, uma conhecida. 
Ou o médico faz aquela cara estranha quando vê os teus exames. 
E então lembras-te que há um fim.
Há um início e um fim. É um facto impossível de negar. 
E é por isso que devias engolir o medo e olhar para o mundo, 
para aquela criança que aprende a andar, 
para os teus filhos que crescem a uma velocidade vertiginosa. 
Diz gosto de ti. Abraça. 
E quando chover vais olhar para o céu e ver a beleza do céu fértil. 
Talvez amanhã já esteja tudo esquecido. Ou não. 
Mas não é grave. A vida é assim.

segunda-feira, 16 de abril de 2018



Tive a sorte de ter crescido no meio da serra e da natureza.
Um rio, árvores a perder de vista, sol no céu.
Uma aldeia cheia do ritmo humano, de caminhos molhados e os risos das crianças.
E é nesta paisagem explorada mil vezes de dia e de noite,
nos dias cinzentos e nos dias de sol que  encontrei pessoas de coração cheio.
Deixo-me muitas vezes engolir pelo trabalho numa urgência que não é minha
e refugio-me nas palavras em vez de estar mais próximo deles.
Falha minha. 
Para curar o meu cansaço mergulhei a alma na gente do meu passado
e da minha infância e voltei cheia de mim.

terça-feira, 20 de março de 2018



A noite e o frio que devora. 
Caminhar como um viajante sem bagagem. procurar o calor, aqui ou ali. 
Perder o fôlego e espreitar a luz.
A estrada pode ser longa quando nos perdemos entre as horas educadas e as horas selvagens.
 Procuramos a linha paralela como os corpos que dançam e as vidas cúmplices.
Há nos olhos uma luz, como a emoção e a vida entre as costelas. Correr. Rir.
E então o silêncio quente e húmido da felicidade. 
E a promessa de não dizer nada e oferecer tudo.