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quinta-feira, 24 de maio de 2018



Aprisionar os erros
Aceitar melhor as fraquezas
Abafar algumas susceptibilidades...
Pequenas vitórias

Mas de vez em quando a incerteza
Avançar devagar
E saber as possibilidades

Magoei-me na estrada dos pensamentos
Tropecei nos silêncios repetidos
Fico no chão com medo de tentar

O melhor é levantar
Uma nódoa negra, uma ferida
A pele vermelha nos joelhos

Talvez seja melhor experimentar outro caminho
O problema é que tenho um fascínio por joelhos feridos


segunda-feira, 23 de abril de 2018


Sabes que tudo acaba.
Às vezes tentas esquecer porque é mais confortável e menos assustador. 
Ou porque a lista dos apetites é grande e a das curiosidades maior ainda. 
Esqueces o fim quando a vida é doce e suave e sabes o equilíbrio entre a tempestade e a rotina.
Mas depois um amigo morre, um pai, uma conhecida. 
Ou o médico faz aquela cara estranha quando vê os teus exames. 
E então lembras-te que há um fim.
Há um início e um fim. É um facto impossível de negar. 
E é por isso que devias engolir o medo e olhar para o mundo, 
para aquela criança que aprende a andar, 
para os teus filhos que crescem a uma velocidade vertiginosa. 
Diz gosto de ti. Abraça. 
E quando chover vais olhar para o céu e ver a beleza do céu fértil. 
Talvez amanhã já esteja tudo esquecido. Ou não. 
Mas não é grave. A vida é assim.

terça-feira, 27 de março de 2018



Aprendo a não fazer nada. Preciso mudar. Cortar o cabelo bem curto. Viajar sem destino. Ficar louca e escrever. Escolhi o silêncio e (tentar) fugir da internet. Era a solução mais sensata. O tempo passa mais devagar. Os minutos já não são engolidos pelo ecrã do meu computador e do meu telemóvel. Vou para os cafés, procuro a biblioteca. A minha casa é uma ilha. Uma ilha deserta. Sinto-me sozinha e tenho medo da minha solidão. Mas durmo mais. Quero menos o tudo, agora, já. Sinto-me mais livre também, como se tivesse cortado os fios que me prendiam aos outros e ao mundo. Encontro caminhos esquecidos para fazer o que antes demorava segundos. Percebo a minha sensibilidade. Como o nada me transforma. Mas por dentro há o mesmo calvário. Não o vejo mas sei as quedas interiores. Os meus gritos param antes de passar a fronteira dos lábios. Mas oiço-os. Quero ouvi-los. Não quero o inútil, apenas o que faz sentido. Quero ter tempo e poder oferecê-lo.

quarta-feira, 21 de março de 2018


Há o vento que te leva. 
É como se pequenas partes de ti voassem à volta do teu corpo sem as conseguires juntar. É um bailado antigo, dias que já não se contam. Já nem sabes quando começou. Estás, sem saber onde, ausente da tua própria vida e com medo de esquecer o teu nome, de acordar uma manhã com amnésia ou louca. Murmuras o teu nome para afastar o esquecimento. E então sentas-te nas bordas da tua vida como se fosse um abismo. No meio dessa ausência o teu corpo balança e restabelece o equilíbrio. O teu corpo existe. Essa é a tua única certeza. É como a corda de um arco. Os músculos tensos e o corpo pronto para a luta.
E é nesse momento que sabes. 
Sabes que esses pedaços de ti são apenas pequenas peças de um único puzzle.

quarta-feira, 14 de março de 2018


Hoje. Escrever o dia de hoje porque o de ontem escapou. 
Talvez arriscar e ir mais longe do que a fronteira dos nossos desejos. 
Talvez deixar de criar rotinas. É estranha esta ideia uma vez que sou uma criatura de hábitos e de rituais. 
Ignoro o sentido prático da coisa. 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018


Olho para aquele casal. Duas mulheres, jovens. 
As duas são surdas, ou mudas. Tento fazer o inventário dos gestos e das variáveis. Observo como as mãos cortam, viram, indicam, batem e como os dedos tocam piano no ar ou num punho, numa testa ou nariz. Uma conta e a outra concorda. Elas não olham para as mãos mas para a linha do horizonte que une os dois olhares porque não basta olhar. A condição sine qua non deste diálogo é nunca parar de ver. 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018


Ser mulher e fugir da luta. Porque viver é uma luta. Ser. Carne viva, pele esfomeada e honrar todos os papéis. Há o vento e o absoluto. Abrir as gaiolas construídas, hesitar entre escrever e desistir. A tentação e a dúvida sempre. Não há uma escolha certa e no entanto é nas horas azuis e nas noites cheias da lua que penso em fugir. Como se fugir fosse fácil. Deixar a borda do rio e construir outra vida, longe. e talvez encontrar um novo sentido. O que tanto nos prende ao chão?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Quinta-feira

Pelos vistos não sei respirar, o que atrai os maus pensamentos e asfixia os bons. 
Nunca tinha pensado nisso.
Podemos encontrar-nos à beira mar. Para explicares.
E enquanto espero, acumulo as minhas dúvidas. Um mil folhas de incertezas.
O silêncio prolonga-se e penso em ti.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


Gostava de conseguir meter a chave debaixo da porta, virar a página e apagar tudo sem avisar.
Estou cansada dos jogos de aparência. No entanto continuo a escurecer as páginas em branco à procura dos possíveis. Tenho as palavras que dançam na barriga. A escrita é a minha imensidão. As palavras destinadas a tocar no vazio e o silêncio nunca têm o mesmo brilho. Porque escrever é uma declaração de um eu que existe. Todos fazemos a mesma coisa: defender a nossa humanidade, gritar com mais ou menos barulho que estamos vivos.
Ainda hoje não sei qual é o meu lugar neste universo cheio de espelhos mas a partilha nunca é inocente e alimenta-se de reciprocidade. O Deus das Pequenas Coisas é o meu único espaço de liberdade. Obrigada pela vossa presença aleatória, silenciosa, fiel, recente ou constante.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018


Às vezes, durante um milésimo de segundo, tenho esta sensação insolente em que tudo é possível, que podemos mudar a corrente da vida e que cada um de nós é a força que define a forma como vivemos, as regras, as leis e os tabus. 
Inconsciência efémera?

terça-feira, 30 de janeiro de 2018



Na nossa existência fabricada há horas que nunca mentem. As horas suaves da infância. Cimento dos nossos alicerces, essas horas nunca param de correr nas nossas veias, de acalmar os nossos medos, as dúvidas e as incertezas. Tive um ambiente cheio de amor que me afastou durante muito tempo do barulho do mundo. Mas esse amor foi mais do que suficiente para fortalecer as raízes e ajudar-me a enfrentar as tempestades da vida. Com ele construí o terreno da minha vida adulta e é claro que tive quedas barulhentas e dolorosas mas sei onde me abrigar quando o céu cai em cima de mim.


domingo, 28 de janeiro de 2018



Sábado à noite. Gosto da força do vinho. E o espelho grande que reflecte no outro, como um buraco infinito onde caem os meus pensamentos. 
E quando toca a meia noite saio para a rua apanhar o ar fresco da noite. Avanço rapidamente. Tenho o vestido preto e o casaco rosa. E as sapatilhas claro. As luzes dançam no rio que ondula. 
E de repente anseio pelo vazio. Talvez perceber o que me impede de ser feliz.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018



A nostalgia de um ontem no cinzento do céu, como algo violento. A árvore sem folha e a estrada vazia. Será a lembrança suave da mesma estrada vinte anos antes? A pele doce e a esperança já morta. Será a memória destas estradas sem fins entre aqui e ali? Ou é simplesmente a medida do tempo?Tínhamos o vento calmo e a alma selvagem. Apertava a tua mão quando o céu parecia a barriga de uma mulher grávida. Maternidade, neutralidade, rotina. Os vampiros da minha alma. Às vezes é preciso encontrar o caminho de volta para nós. Lembrar a intoxicação. O mundo não se preocupa connosco. Podemos tudo. Silenciosos, discretos. Somos livres. Os invisíveis de quem ninguém sente falta. As horas encolhem e os sonhos são maiores. Está na hora de nos fazermos à estrada em vez de massacrar o estômago. Talvez explorar outros mundos, sem preocupações ou regras.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018




Há pessoas que vivem com uma ferida, uma partilha impossível de vida. Como se seduzidas quisessem pertencer e quando pertencem perdem a essência do que são.
A mais velha casou para poder sair de casa. Teve cinco filhos. Esteve casada até à morte, quase sessenta anos. É bonito? Depende. Passou os últimos anos da vida a dizer ao marido que ele a tinha impedido de viver e de ser feliz. 
A mais frágil tentou ser a melhor das mães, uma esposa devota que enterrou os sonhos numa cama sem cores.
A mais bonita encontrou um equilíbrio no tempo. Depois de um primeiro casamento feito de grades, experimentou o caminho da solidão. Às vezes desconfortável e ao mesmo tempo cheio de aventuras fantásticas e de encontros efémeros. O tempo passou, o descanso chegou. Encontrou um homem parecido com ela, mais novo, mais louco. Casaram. Estão juntos até hoje.
Ela? Ela tentou seguir o caminho que mais lhe agradava. Tentou a suavidade ordinária e perdeu. Continua a procurar a paz sem nunca a saborear e o amor sem nunca o cultivar.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


Fica sentada na borda dos sonhos. Há anos que o faz. Nunca se mexeu. Tem a pele das bonecas de cera. Espera um sinal. Tem tanto para dizer. Ou talvez não tenha nada. Faz da escrita uma história pessoal. Vê-se nela como quem olha para um espelho.
No entanto nunca percebeu quem era. Fica de frente para o espelho e procura-se dentro. Guarda apenas os olhos verdes e deita fora o resto. Por baixo da carne bate um coração furioso. 
Escreve mas nem sempre se reconhece nas palavras. Está lá uma parte do que é mas há também outra coisa. Indefinida.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018




Alguma vez sentiram se vivem verdadeiramente o presente? Tenho sempre a terrível sensação de vaguear nas bordas da minha vida.
De tanta antecipação, análise e ajustamento, a vida escorrega-me por entre os dedos, inconsistente e terrivelmente abstrata. O meu espírito vagabunda, esboço planos para amanhã e arredondo os ângulos de ontem ao mesmo tempo que hoje corre sem parar.
No entanto sei que tenho apenas uma certeza: o instante, o momento, o hoje. É o sopro, a evidência e uma âncora.
Quando o hoje é doloroso como uma farpa cravada na pele frágil, estar consciente do meu caráter efémero pode salvar-me a vida como já aconteceu tantas vezes. Mas quando o agora é feliz, belo e doce, investir nele alimenta-me o corpo e a alma. Sou mais forte e mais feliz. 
Se me perguntassem hoje se sou feliz diria que não. Mas tento agarrar-me ao hoje sem pensar muito no amanhã. Tento olhar para a vida de frente sem desviar o olhar  e dizer: estou aqui, no lugar certo.