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terça-feira, 20 de setembro de 2022




Ofereci-te tanta coisa. A mais preciosa, aquela que há muitos anos não dava a ninguém - a mais preciosa, repito, foi a minha absoluta disponibilidade para estar contigo, ouvir-te, ou estar em silêncio perto de ti.

Al Berto 

quarta-feira, 27 de julho de 2022



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre

sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.

eu sei exatamente o que é o amor, o amor é saber

que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer,

o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte

de nós que não é nossa, o amor é sermos fracos.

o amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto 

terça-feira, 5 de julho de 2022




Não há limite que não seja por ele suportado. 
Suporta todo o cansaço. 
Traições, fadiga, falhanços. 
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa; 
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 22 de junho de 2022

 Se agora batesses à minha porta

e tirasses os óculos

e eu tirasse os meus que são iguais

e depois entrasses na minha boca

sem temer beijos desiguais

e me dissesses: «meu amor,

que aconteceu?», seria uma peça de teatro de sucesso.


Patrizia Cavalli (tradução de João Coles)




terça-feira, 14 de junho de 2022



Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.

Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio.

Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.

Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu.

Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecêmo-nos.

Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.

Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.

Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.

Al Berto 

terça-feira, 8 de junho de 2021




Aguardo-te

como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito


Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.


Mia Couto

sexta-feira, 23 de abril de 2021



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos e por vezes

Encontramos de nós em poucos meses
O que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

Ao tomarmos o gosto aos oceanos
Só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
Num segundo se enrolam tantos anos


David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020



o amor é uma luz 
a correr de noite pelo nevoeiro 

o amor é uma carica de cerveja 
pisada a caminho 
da casa de banho 

o amor é a chave de casa perdida 
quando estás bêbado 

o amor é o que acontece 
uma vez a cada dez anos 

o amor é um gato esmagado 

o amor é o velho ardina 
na esquina 
que já desistiu 

o amor é o que tu pensas que a outra 
pessoa destruiu 

o amor é o que desapareceu 
na época dos vasos de guerra 

o amor é o telefone a tocar 
a mesma voz ou outra voz 
mas nunca a voz 
certa 

o amor é traição 
o amor é a incineração 
de vagabundos num beco 

o amor é ferro 
o amor é a barata 
o amor é a caixa de correio 

o amor é a chuva no telhado 
de um velho hotel 
em Los Angeles 

o amor é o meu pai num caixão 
(o teu pai que te odiava) 

o amor é um cavalo com uma pata 
partida 
a tentar levantar-se 
perante uma assistência 
de 45 000 pessoas 

o amor é o modo como fervemos 
como a lagosta 

o amor é tudo aquilo que dissemos 
que não era 

o amor é a pulga que não consegues 
encontrar 

e o amor é uma melga 
o amor são 50 granadeiros 

o amor é uma arrastadeira 
vazia 

o amor é um banco de bar vazio 

o amor é um filme do desastre de Hindenburg 
a encarquilhar aos pedaços 
um momento que ainda grita 

o amor é Dostoiévski diante 
da roleta 

o amor é o que rasteja 
pelo chão 

o amor é a tua mulher a dançar 
nos braços de um estranho 

o amor é uma velha 
a roubar um pedaço de 
pão 

e o amor é uma palavra 
usada demasiadas vezes e 
demasiado 
cedo. 

charles bukowsky - os cães ladram facas

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018



Afinal, quem é que tem a pretensão de não ser louca?... 
Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, 
que esses são piores que o diabo!

Florbela Espanca

sexta-feira, 14 de setembro de 2018



A beleza consome e dá de consumo, vem de um lado que ninguém conhece, constrói-se com os minutos, com o tempo de degustação, há pessoas que foram ficando bonitas pela repetição, vamo-las vendo e vamos percebendo traços novos, traços diferentes, como se o rosto tivesse vários rostos em si, uma matrioska estética, temos vários rostos no nosso, ou vários olhares no que olhamos, a beleza é um processo de inteligência, uma construção cerebral.

Pedro Chagas Freitas

terça-feira, 24 de julho de 2018



As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas;

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.


Carlos de Oliveira

terça-feira, 17 de julho de 2018


Podia ter acontecido
Tinha que acontecer.
Aconteceu antes. Mais tarde. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu mas não contigo.
Salvaste-me porque foste o primeiro.
Salvaste-te porque eras o último.
Porque só. Porque pessoas. Porque à esquerda, À direita.
Porque chuva caía. Ou a sombra.
Porque fazia um tempo soalheiro.
Por sorte havia um bosque.
Por sorte não havia árvores.
Por sorte um gancho, carris, a viga, os freios,
um vão, a curva, um milímetro, segundos.
Por sorte a navalha flutuava no rio.
Efeito, e contudo, e porque, e apesar de.
Mas que seria se a mão, a perna,
por um passo, a um cabelo
da coincidência havida.
Sempre chegaste? Directo do momento mal transposto?
Tinha a rede uma abertura e tu passaste?
Não sei ficar pasmada nem calar-me a isso.
Escuta:
como o teu coração me bate rápido.

Wislawa Symborska

terça-feira, 3 de abril de 2018


Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.

Adélia Prado

quinta-feira, 8 de março de 2018


Há balanços que evito fazer. Portas que devem ficar fechadas.
Deixas-me cair por terra sem hesitar. 
Há frio e fraqueza. Há cansaço. 
O coração pede tréguas e a boca guarda o último beijo. 
Já não preciso de nada. Não era isso que querias?


Cuidado. 
O amor é um pequeno animal desprevenido
Uma teia que se desfia pouco a pouco.
Guardo silêncio para que possam ouvi-lo desfazer-se.
Ruy Cinatti

terça-feira, 16 de janeiro de 2018



O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisso. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. de resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.


Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018


Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas ( como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018



I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell’s fires fade:
Exit seraphim and Satan’s men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you’d return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)


Mad Girl’s Love Song
Sylvia Plath

terça-feira, 2 de janeiro de 2018



Vou-te dar um presente
eu gosto de presentes
é uma caixa de jóias
é tão bonita
dentro está um anel com uma pedra preciosa
porque é tão grande?
toma
porque é tão grande?
toma
cuidado
dentro está um anel com uma pedra preciosa
mas talvez nunca o chegues a pôr no dedo
na caixa está uma serpente
para pegares no anel tens de abrir a caixa
se abrires a caixa a serpente pode picar-te o dedo
e tu podes morrer
se não abrires a caixa

Adília Lopes