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segunda-feira, 29 de junho de 2020



O vento era forte, dentro e fora.
O vento dentro, o barulho interminável durante o dia e de noite a ressaca. 
Gosto do mar cinzento, frio e o céu selvagem. 
A água rasgada que atropela tudo na esperança que cada coisa volte ao lugar certo.

Sou mulher de mar de inverno. 
As praias sacudidas pelo vento e os cabelos nos olhos.
Sou mulher de águas frias para sentir a vida. 
Uma mulher de céus estrelados, os pés descalços e o vestido molhado. 
E a água salgada. Por dentro e por fora.
Havia a areia que marcava as pernas e a cara. 
O vento furioso que apertava o peito, a maré baixa e a espuma branca e fria.


Havia o vento. Deixei-o levar-me, cansada de resistir. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019



A música foge 
A impulsão e a tensão
Nada é imutável

Os nossos desertos são permeáveis
O teu
O meu

Sei janeiro e o vento
E sei-me a procurar a ilusão de um desejo perdido algures
Nas bordas do caminho

E ficamos presos nas mesmas horas
Com menos certezas
E de coração vazio

terça-feira, 17 de julho de 2018

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Uma manhã ultrapassada
O cheiro do rio
E todo o tempo cosido junto

Pedaços de um sonho que volta
E do outro lado a brisa que sopra
Para levar os dias embora

E ainda os mesmos turbilhões
Que nos empurram para outro lado
O tempo é uma corrente 

Entre as horas que magoam
E as outras que aconchegam
Querer reparar o inquebrável
Como se a vida não fosse mais do que isso

quarta-feira, 21 de março de 2018


Há o vento que te leva. 
É como se pequenas partes de ti voassem à volta do teu corpo sem as conseguires juntar. É um bailado antigo, dias que já não se contam. Já nem sabes quando começou. Estás, sem saber onde, ausente da tua própria vida e com medo de esquecer o teu nome, de acordar uma manhã com amnésia ou louca. Murmuras o teu nome para afastar o esquecimento. E então sentas-te nas bordas da tua vida como se fosse um abismo. No meio dessa ausência o teu corpo balança e restabelece o equilíbrio. O teu corpo existe. Essa é a tua única certeza. É como a corda de um arco. Os músculos tensos e o corpo pronto para a luta.
E é nesse momento que sabes. 
Sabes que esses pedaços de ti são apenas pequenas peças de um único puzzle.

domingo, 4 de fevereiro de 2018


O vento corre nas ruas e despenteia uma rapariga que deve ter passado horas a domar o cabelo rebelde para agradar a quem ama em segredo.
Os carros voam por cima da estrada enquanto a noite chega devagar.
A minha cidade fica azul. O piano nos meus ouvidos ainda dança, as minhas ancas roçam na pressa das pessoas que passam por mim a correr. O jovem e o seu ramo de flores, bonito mas triste. A mãe e os pequenos.
O museu vai fechar as portas e os últimos curiosos invadem os passeios, os olhos carregados das cores da vida junto ao rio de águas negras.
O mundo passa e eu paro. Cheiro as pessoas que se cruzam comigo sem olhar para mim. O ar frio entra-me no corpo. A rua ficou vazia.
Saboreio o vento e sonho acordada. Danço e deixo-me levar pela ligeireza. Provoco-a. Antes de cair. É evidente. Danço antes da queda.