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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019



Partilhei imensas noites com livros. Dos primeiros, recordo as aventuras e as convicções. 
Os clássicos alimentaram o prazer e a virtude. 
Camus e Sartre encheran-me de dúvidas e detestei Ignatius Reilly. 
Mas sem dúvida alguma, Kundera e Sade.
Uma pequena biografia literária que simplifica o meu caos pessoal.
A vida seria mais tranquila sem a leitura mas eu sou insatisfeita. Perceber, provar, mexer. 
Em cada leitura fico cheia. deixo-me atravessar e invadir. 
Sem reserva, até provar a última gota de prazer.

terça-feira, 17 de julho de 2018


Podia ter acontecido
Tinha que acontecer.
Aconteceu antes. Mais tarde. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu mas não contigo.
Salvaste-me porque foste o primeiro.
Salvaste-te porque eras o último.
Porque só. Porque pessoas. Porque à esquerda, À direita.
Porque chuva caía. Ou a sombra.
Porque fazia um tempo soalheiro.
Por sorte havia um bosque.
Por sorte não havia árvores.
Por sorte um gancho, carris, a viga, os freios,
um vão, a curva, um milímetro, segundos.
Por sorte a navalha flutuava no rio.
Efeito, e contudo, e porque, e apesar de.
Mas que seria se a mão, a perna,
por um passo, a um cabelo
da coincidência havida.
Sempre chegaste? Directo do momento mal transposto?
Tinha a rede uma abertura e tu passaste?
Não sei ficar pasmada nem calar-me a isso.
Escuta:
como o teu coração me bate rápido.

Wislawa Symborska

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Não importava que a história já tivesse começado , porque o kathakali descobriu há muito que o segredo das Grandes Histórias é que elas não tem segredos. As Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo.Aquelas em que você pode entrar por qualquer parte e habitar confortavelmente . Elas não enganam você com truques e finais emocionantes. Elas não surpreendem você com o imprevisível . Elas são tão familiares como a casa em que se vive. Ou como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam,mas,mesmo assim, você escuta como se não soubesse.Da mesma forma que apesar de saber que um dia vai morrer, você vive como se não fosse.
Nas Grandes Histórias você sabe quem vive,quem morre,quem encontra o amor, quem não encontra. E, mesmo assim, você quer ouvir de novo."

O Deus das Pequenas Coisas -  Arundhati Roy

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

..Durante meses não lhe respondi. Porquê? Porque não podia escrever senão à Ellen, à Ellen: toda a outra correspondência me era intolerável. (Escrever a outros quando me podia dirigir a ela?!) E o resultado? Ei-lo: não me matei em conferências e artigos para magazines. Qual o resultado pecuniário, esse recuso a ponderá-lo... Mas, agora, que acabei a peça (em borrão), tentarei ganhar algum dinheiro suplementar - não que me apeteça, mas fui sempre tão inábil para o forjar que ninguém me tira a ideia de que estou à beira da falência...
Mas em verdade é só a Ellen, a ellen, a Ellen, a felicidade, a tranquilidade, a paz, o refúgio, a consolação de amar a querida Ellen - vá, acrescente: 'e de ser amado por ela' (uma mentira custa tão pouco...) - o meu único tesouro...
...Tornei a sentar-me para lhe escrever. As chamas esmorecem na lareira; este frio cortante é-me propício, suponho, já que por compleição sou um homem do Norte, mas espero que a Ellen esteja quentinha como uma ilha ao sol, amadornada no Mediterrâneo. Agora que terminei a peça só me resta beijar, enfim, a minha Ellen, e morrer.

Carta de amor de Bernard Shaw a Ellen Terry

terça-feira, 16 de janeiro de 2018



O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisso. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. de resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.


Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido

terça-feira, 9 de janeiro de 2018



A mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário, é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto "fêmea" soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha da sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dizem dele: "É um macho!". O termo " fêmea" é pejorativo, não porque enraíza a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.

O segundo sexo - Simone de Beauvoir