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segunda-feira, 19 de julho de 2021




Os de sempre. Como uma família.

O homem velho e doce, com o olhar cheio de nostalgia. 
Tem o amor tatuado no braço. Na pele fina, uma data e um nome.

Na outra mesa, o casal de amantes que se junta de 3 em 3 meses para 2 horas de prazer.

No canto uma rapariga tímida. Senta-se sempre muito direita. 
Observa tudo à sua volta. 
Os segundos entre a sombra e a luz alimentam-na o suficiente para ganhar 
forças e voltar para o emprego sem alegria. 
A pele pálida e o tempo desenhado nos cantos dos olhos. 
Ninguém a pode domar, ainda menos conquistar. 
Talvez só queira ser amada.

ps: texto escrito no verso de um guardanapo, no café de sempre

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018



Estava atrasado e talvez o tivesse feito de propósito. Estes seis meses passados no apartamento vazio da presença dela tinham sido pesados, cheios de uma tristeza diluída. E a culpa também.
Ao longo destes seis meses ela não quis receber as minhas visitas. Até depois dos médicos dizerem que era possível. Ela não estava pronta para que a visse no meio do verde pastel das paredes do hospital. 
Talvez quisesse apanhar as peças de um puzzle do qual me excluiu com medo de nos destruir. Não quero impedir-te de viver a tua vida, disse ela.
Cheguei junto ao café e vi-a através da janela transparente. O olhar perdido. 
Ela sempre foi bonita mas agora tinha uma beleza suava e doce. Percebe-se a sombra das feridas, as olheiras e a pele pálida. No entanto tem os lábios vermelhos e os olhos brilhantes das horas difíceis. Saberei amá-la como ela precisa? Saberei perdoar-lhe? Entro no café e oiço na sua voz o meu nome. E o corpo frágil nos meus braços. Deixo-me ficar naquele abraço que me traz à memória o caminho para a luz.