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terça-feira, 11 de agosto de 2020


As palavras tiveram sempre um forte impacto. Para mim, a escrita pode ser uma bóia de salvação. 
A vida ensinou-me a não ter medo de me afogar e a minha maior vitória é poder escrever em total liberdade nas ondas do mar. Até no meio das tempestades, as palavras podem salvar-nos do naufrágio. Basta escrever.
Anunciamos ao mundo os nossos defeitos e tudo o resto também. E é na beleza da escrita que descobrimos que não estamos sozinhos. Cada frase é o som de uma voz que fala. 
Nunca poderei parar de escrever. Oiço os sons das letras e o barulho do lápis no papel. Escreve-se no silêncio para não gritar. O som das palavras será sempre mais forte do que um grito desesperado.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019




Preso. 
Algures entre o coração e a madrugada.
E o sol por cima dos telhados.
E Chet Baker, baixinho na cozinha.

E as palavras.
A vontade de amar, apesar dos humores inconstantes.
A distância que separa.
Como as duas margens de um rio.
E as pedras. E a corrente.
 
Irei caminhar. Vou sempre.
Escrever e caminhar. 
Atravessar a cidade e os dias.

E agarrar as imagens nas batidas do coração.
Está tudo bem.
A luz persiste.Sempre.

quarta-feira, 14 de março de 2018


Hoje. Escrever o dia de hoje porque o de ontem escapou. 
Talvez arriscar e ir mais longe do que a fronteira dos nossos desejos. 
Talvez deixar de criar rotinas. É estranha esta ideia uma vez que sou uma criatura de hábitos e de rituais. 
Ignoro o sentido prático da coisa. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


Sento-me e abro uma página em branco. Não sei bem sobre o que escrever mas sei que tenho o corpo em alerta. Porque as palavras e o frio têm em mim o mesmo efeito. A pele fica sensível, quase dorida. Preciso de um abraço. Preciso de reconforto. E é isso que encontro em cada texto. É o meu luxo. Reinventar no escuro da noite os silêncios e as emoções, as fragilidades e os arrepios. Pensar na tua pele na minha, encontrar a palavra certa para dizer a saudade. As palavras são eternas declarações de vida. Invento outros mundos e desenho no abandono das metáforas todo o amor que sinto por ti.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


Gostava de conseguir meter a chave debaixo da porta, virar a página e apagar tudo sem avisar.
Estou cansada dos jogos de aparência. No entanto continuo a escurecer as páginas em branco à procura dos possíveis. Tenho as palavras que dançam na barriga. A escrita é a minha imensidão. As palavras destinadas a tocar no vazio e o silêncio nunca têm o mesmo brilho. Porque escrever é uma declaração de um eu que existe. Todos fazemos a mesma coisa: defender a nossa humanidade, gritar com mais ou menos barulho que estamos vivos.
Ainda hoje não sei qual é o meu lugar neste universo cheio de espelhos mas a partilha nunca é inocente e alimenta-se de reciprocidade. O Deus das Pequenas Coisas é o meu único espaço de liberdade. Obrigada pela vossa presença aleatória, silenciosa, fiel, recente ou constante.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018


Afogo-me na escuridão. É bonito. O ritmo dos salpicos e a sombra que cola à pele.
As horas são indizíveis e desfaço-me nas metáforas. Gostava de escrever palavras cristalinas, transparentes, como a água que escorre de dentro para fora.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018


Niilas Nordenswan Photography, Autoportrait


Talvez um dia. 
Escrever o amor. A madrugada dos sentimentos como as persianas que se abrem para um jardim coberto de rosas. Adormecido, entorpecido. À espera de um toque para acordar. Flor fechada na luz que nasce. Sentidos aprisionados numa caixa de cetim.

Quem sabe um dia. 
Escrever a esperança que voa. O coração apertado, o calor de uma voz. Saber as promessas loucas que aquecem o coração maduro e ficar longe das dores do passado, ardósia apagada. Perceber os olhos que brilham, as lágrimas e o medo também.

Talvez um dia possa escrever para ti, de quem nada sei.
Ainda.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018



Estava atrasado e talvez o tivesse feito de propósito. Estes seis meses passados no apartamento vazio da presença dela tinham sido pesados, cheios de uma tristeza diluída. E a culpa também.
Ao longo destes seis meses ela não quis receber as minhas visitas. Até depois dos médicos dizerem que era possível. Ela não estava pronta para que a visse no meio do verde pastel das paredes do hospital. 
Talvez quisesse apanhar as peças de um puzzle do qual me excluiu com medo de nos destruir. Não quero impedir-te de viver a tua vida, disse ela.
Cheguei junto ao café e vi-a através da janela transparente. O olhar perdido. 
Ela sempre foi bonita mas agora tinha uma beleza suava e doce. Percebe-se a sombra das feridas, as olheiras e a pele pálida. No entanto tem os lábios vermelhos e os olhos brilhantes das horas difíceis. Saberei amá-la como ela precisa? Saberei perdoar-lhe? Entro no café e oiço na sua voz o meu nome. E o corpo frágil nos meus braços. Deixo-me ficar naquele abraço que me traz à memória o caminho para a luz.