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terça-feira, 5 de julho de 2022




Não há limite que não seja por ele suportado. 
Suporta todo o cansaço. 
Traições, fadiga, falhanços. 
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa; 
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 14 de junho de 2022



Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.

Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio.

Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.

Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu.

Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecêmo-nos.

Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.

Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.

Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.

Al Berto 

terça-feira, 8 de junho de 2021




Aguardo-te

como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito


Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.


Mia Couto

terça-feira, 17 de julho de 2018


Podia ter acontecido
Tinha que acontecer.
Aconteceu antes. Mais tarde. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu mas não contigo.
Salvaste-me porque foste o primeiro.
Salvaste-te porque eras o último.
Porque só. Porque pessoas. Porque à esquerda, À direita.
Porque chuva caía. Ou a sombra.
Porque fazia um tempo soalheiro.
Por sorte havia um bosque.
Por sorte não havia árvores.
Por sorte um gancho, carris, a viga, os freios,
um vão, a curva, um milímetro, segundos.
Por sorte a navalha flutuava no rio.
Efeito, e contudo, e porque, e apesar de.
Mas que seria se a mão, a perna,
por um passo, a um cabelo
da coincidência havida.
Sempre chegaste? Directo do momento mal transposto?
Tinha a rede uma abertura e tu passaste?
Não sei ficar pasmada nem calar-me a isso.
Escuta:
como o teu coração me bate rápido.

Wislawa Symborska

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

..Durante meses não lhe respondi. Porquê? Porque não podia escrever senão à Ellen, à Ellen: toda a outra correspondência me era intolerável. (Escrever a outros quando me podia dirigir a ela?!) E o resultado? Ei-lo: não me matei em conferências e artigos para magazines. Qual o resultado pecuniário, esse recuso a ponderá-lo... Mas, agora, que acabei a peça (em borrão), tentarei ganhar algum dinheiro suplementar - não que me apeteça, mas fui sempre tão inábil para o forjar que ninguém me tira a ideia de que estou à beira da falência...
Mas em verdade é só a Ellen, a ellen, a Ellen, a felicidade, a tranquilidade, a paz, o refúgio, a consolação de amar a querida Ellen - vá, acrescente: 'e de ser amado por ela' (uma mentira custa tão pouco...) - o meu único tesouro...
...Tornei a sentar-me para lhe escrever. As chamas esmorecem na lareira; este frio cortante é-me propício, suponho, já que por compleição sou um homem do Norte, mas espero que a Ellen esteja quentinha como uma ilha ao sol, amadornada no Mediterrâneo. Agora que terminei a peça só me resta beijar, enfim, a minha Ellen, e morrer.

Carta de amor de Bernard Shaw a Ellen Terry

terça-feira, 16 de janeiro de 2018



O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisso. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. de resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.


Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido

terça-feira, 9 de janeiro de 2018



A mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário, é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto "fêmea" soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha da sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dizem dele: "É um macho!". O termo " fêmea" é pejorativo, não porque enraíza a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.

O segundo sexo - Simone de Beauvoir