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terça-feira, 16 de junho de 2020



Todos conhecem músicas, livros ou pessoas capazes de viciar, 
daquelas que se esgueiram pelo meio dos pensamentos, impedindo qualquer concentração? 

Quem nunca sucumbiu a uma tentação? 
Daquelas tentações que atropelam sem avisar , cheias de indecência. 

Às vezes sou uma mulher imprópria, que insiste sem pudor. 
Enfio as minhas palavras nos silêncios, como um suspiro entre as costelas, 
um murmúrio junto aos rins, uma tumulto na fissura sombria da raiva. 
E aprendo a guardar as feridas. 

E então há que celebrar a alegria. Ela ilumina as cicatrizes. 
Rir para saborear, sorrir. Engolir os segundos felizes e frágeis. 
 O suor afoga-se nos lençóis e perfuma o quarto. 
Não existe mais nada além da urgência, do olhar que emociona.
Agarrar a força, tocar os sorrisos, lamber o sal junto aos lábios. 

Há momentos cheios de faíscas, quando se inventa um outro mundo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018



Houve um tempo em que ser amada era uma prioridade, 
uma necessidade maior do que a minha própria vida. 
Mas aprendi que o respeito e o amor próprio são bem mais importantes. 
Já não espero muito dos meus dias. Vivo e luto pelos meus filhos.
Olho para o espelho e vejo sombras, um sorriso forçado 
e alguém que não fará mais do que sobreviver, porque viver é para quem merece.

terça-feira, 17 de julho de 2018

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Uma manhã ultrapassada
O cheiro do rio
E todo o tempo cosido junto

Pedaços de um sonho que volta
E do outro lado a brisa que sopra
Para levar os dias embora

E ainda os mesmos turbilhões
Que nos empurram para outro lado
O tempo é uma corrente 

Entre as horas que magoam
E as outras que aconchegam
Querer reparar o inquebrável
Como se a vida não fosse mais do que isso

quinta-feira, 21 de junho de 2018



Sandra Pozun

A casa cheira a madeira húmida como a lembrança do chão velho e abandonado.
No fundo das escadas uma cabeça de leão. 
Uma sensação familiar, trinta anos depois quando desço os degraus.
As pedras velhas afastam o calor. 
Os lençóis de algodão frescos na pele. 
Tenho dez anos e depois quarenta. 
O prazer mudou desde as primeiras emoções.
A estrada e os caminhos atravessados, as evasões. 
Sentes o sal junto ao pescoço e uma madeixa de cabelo húmido 
que dois dedos afastam da tua cara.
Ao fundo o céu cinzento, o corpo amado e a fome que nasce.
Há que sentir a vida e provar a pele.

quarta-feira, 16 de maio de 2018



É indecente como o tempo passa tão depressa. Os meses e as estações correm numa maratona louca. Primavera, outono, inverno e verão. Verde, amarelo, vermelho, branco. Céu azul, cinzento giz, antracite, escuridão. Manhãs claras, relógio que não pára. Vivi durante muito tempo o correr dos dias como uma queda dolorosa, como o luto de uma vida passada do lado de fora.
Mas por trás desta morte aparente vejo os mecanismos complexos que alimentam o bailado das nossas horas.
E hoje, o sol quente aqueceu-me a alma e o corpo.

segunda-feira, 14 de maio de 2018


O tempo que se esperava. A onda branca da manhã, os momentos suspensos, o nariz que olha para o cume das árvores. Pés descalços, o corpo que escorrega no algodão ligeiro, abandonado nas horas longas que deslizam até à noite escura. Sorrimos na suavidade do crepúsculo. Abrimos as janelas adormecidas depois da chuva e bebemos a luz e os segundos que passam.
Ciclo sem fim. Ampulheta virada. Imensidão.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018


Há sempre um lugar
Do outro lado da porta
Nas bordas do tempo
Há sempre o silêncio
E a vontade de o rasgar
Mas nada
Nada se pronuncia
Todos os olhares se perdem
Cada um o seu
Podia ser uma dança

Olho para mim
Escureço o olhar
Despenteio o cabelo
Deito-me na cama com a roupa ainda no corpo
E desapareço


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018





Há muito tempo não tinha medo de nada. Vivia com a certeza presa ao corpo. O tempo atravessou-a e a vida também. Aprendeu a engolir e a comer as palavras.
A perfeição é cansativa. Prefere as peles frágeis, os olhos que choram e as faíscas inesperadas.
Aprende a amar as marcas do tempo, os fios de cabelo cinzentos e as rugas junto aos olhos. É humana. Não quer parar o tempo, apenas saborear os seus efeitos nas noites cheias da lua.