terça-feira, 27 de março de 2018



Aprendo a não fazer nada. Preciso mudar. Cortar o cabelo bem curto. Viajar sem destino. Ficar louca e escrever. Escolhi o silêncio e (tentar) fugir da internet. Era a solução mais sensata. O tempo passa mais devagar. Os minutos já não são engolidos pelo ecrã do meu computador e do meu telemóvel. Vou para os cafés, procuro a biblioteca. A minha casa é uma ilha. Uma ilha deserta. Sinto-me sozinha e tenho medo da minha solidão. Mas durmo mais. Quero menos o tudo, agora, já. Sinto-me mais livre também, como se tivesse cortado os fios que me prendiam aos outros e ao mundo. Encontro caminhos esquecidos para fazer o que antes demorava segundos. Percebo a minha sensibilidade. Como o nada me transforma. Mas por dentro há o mesmo calvário. Não o vejo mas sei as quedas interiores. Os meus gritos param antes de passar a fronteira dos lábios. Mas oiço-os. Quero ouvi-los. Não quero o inútil, apenas o que faz sentido. Quero ter tempo e poder oferecê-lo.

quarta-feira, 21 de março de 2018


Há o vento que te leva. 
É como se pequenas partes de ti voassem à volta do teu corpo sem as conseguires juntar. É um bailado antigo, dias que já não se contam. Já nem sabes quando começou. Estás, sem saber onde, ausente da tua própria vida e com medo de esquecer o teu nome, de acordar uma manhã com amnésia ou louca. Murmuras o teu nome para afastar o esquecimento. E então sentas-te nas bordas da tua vida como se fosse um abismo. No meio dessa ausência o teu corpo balança e restabelece o equilíbrio. O teu corpo existe. Essa é a tua única certeza. É como a corda de um arco. Os músculos tensos e o corpo pronto para a luta.
E é nesse momento que sabes. 
Sabes que esses pedaços de ti são apenas pequenas peças de um único puzzle.

terça-feira, 20 de março de 2018



A noite e o frio que devora. 
Caminhar como um viajante sem bagagem. procurar o calor, aqui ou ali. 
Perder o fôlego e espreitar a luz.
A estrada pode ser longa quando nos perdemos entre as horas educadas e as horas selvagens.
 Procuramos a linha paralela como os corpos que dançam e as vidas cúmplices.
Há nos olhos uma luz, como a emoção e a vida entre as costelas. Correr. Rir.
E então o silêncio quente e húmido da felicidade. 
E a promessa de não dizer nada e oferecer tudo.

quinta-feira, 15 de março de 2018


Quinta-feira fria. E o sol tímido. Os raios espreitam na madrugada do dia, por trás das cortinas, antes que chegue o barulho do mundo. A luz branca inunda tudo e brilha nas poças e nos passeios. 
Sento-me junto à janela fria. Escondo as minhas mãos adormecidas nos bolsos do pijama, os olhos perdidos no espetáculo da rua. Estar sem estar, autorizar-se alguns segundos de ausência e tocar da ponta dos dedos o abismo de não estar para ninguém. 

quarta-feira, 14 de março de 2018


Hoje. Escrever o dia de hoje porque o de ontem escapou. 
Talvez arriscar e ir mais longe do que a fronteira dos nossos desejos. 
Talvez deixar de criar rotinas. É estranha esta ideia uma vez que sou uma criatura de hábitos e de rituais. 
Ignoro o sentido prático da coisa. 

terça-feira, 13 de março de 2018


Os seus cabelos tinham o cheiro exacto do meu quarto. 
Nunca nada dele tinha ficado com o cheiro exato do meu quarto. 
Fiquei em silêncio. Guardei as pálpebras-portas, pesadas e fechadas.
Pensei nos pés que nunca pisaram este território onde sei que sou livre.
Este lugar onde ninguém se preocupa comigo. 
E voltei a lembrar que os seus cabelos tiveram apenas uma vez o cheiro exacto do meu quarto.
E fiquei satisfeita em poder adormecer e refugiar-me dentro, como faço sempre que existe matéria.
 Porque a matéria ocupa espaço.
E o vazio fica mais cheio.

quinta-feira, 8 de março de 2018


Há balanços que evito fazer. Portas que devem ficar fechadas.
Deixas-me cair por terra sem hesitar. 
Há frio e fraqueza. Há cansaço. 
O coração pede tréguas e a boca guarda o último beijo. 
Já não preciso de nada. Não era isso que querias?


Cuidado. 
O amor é um pequeno animal desprevenido
Uma teia que se desfia pouco a pouco.
Guardo silêncio para que possam ouvi-lo desfazer-se.
Ruy Cinatti

terça-feira, 6 de março de 2018




A loja está vazia e experimento uma saia. É transparente, dizem-me. O problema é meu, não?
Não me apetece ser razoável. Hoje não.
Deixem-me ser louca.
Fico suspensa nas mãos estendidas e escorrego nos dias como nas páginas de um livro.
Caminho com o nariz no vento sem olhar para o abismo. Tenho a minha saia para amparar a queda.

sábado, 3 de março de 2018



É porque ela se move que eu não a quero. A verdade. Atravessa-me. Magoa. Não a quero pronunciar. A verdade é uma ferida, um obstáculo. A verdade deixa-me muda. Não a consigo pronunciar.

quinta-feira, 1 de março de 2018